O que é vertigem? Medo de cair? Mas porque temos vertigem num mirante cercado por uma balaustra sólida?
Vertigem não é o medo de cair, é outra coisa.
É a voz do vazio debaixo de nós, que nos atrae e nos envolve, é o desejo da queda do qual nos defendemos aterrorizados.

Milan Kundera

Somente no amor gostamos de ver alguém mais feliz do que nós mesmos...

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

... mais nada além de mim!

Meu sono geralmente é um sono tenso, e para potencializar mais ainda a vida, e o meu característico desespero diante dela, tive um sonho tenso, e acordei cansada.
Diversas vezes digo que gostaria de ser uma pessoa comum. Acordar na minha casa comum, tomar meu café comum, meu banho comum, vestir minha roupa comum, pegar meu ônibus comum, ir pro meu trabalho comum, e a noite voltar pra minha vida comum, fazer um sexo comum, e esperar pelo próximo dia comum. Pensar é o maior fardo que carrego, porque meu pensar se opõe a vida comum que me obrigam a levar.
Continuo daqui a pouco... é que to no horário do café!

Voltei... então eu dizia...

Eu poderia comprar um bilhete de loteria comum, que é o sonho comum de todas as pessoas comuns que conheço, e este ser um bilhete premiado pra que eu pudesse ficar sem fazer nada, e continuar meu texto, não é mesmo?
Neste texto como no de amanhã quero falar da raiva e da tristeza que to sentindo, porque falar, neste caso escrever, é mania de gente como eu, neurótica e depressiva.
Dizem que o tempo, e eu decidi agora achar também que a introspectividade de fechar-me em mim mesma, e substituir os amigos, seus olhos e atenção por estas palavras perdidas, sejam um bom consolo pra suportar a distância. Afinal...
Só quero que esta dor passe! Só preciso que meu estômago volte ao normal, e que eu consiga me perdoar por ser tão impulsiva! Assim, e só assim, a minha angustia pra dormir e a minha insônia de viver neste mundo tão desigual e injusto, perdido, mentiroso, insensato, despreparado, covarde e criador da minha inescrupulosidade vai poder novamente se tornar ao menos suportável!
Uma vez em uma conversa que pareceu até tola, se comparada a tantas outras que me fizeram crescer, uma pessoa que me ensinou muitas coisas, me disse que a vida e as pessoas são coisas que toleramos! ... e isto me fez pensar! E talvez demore muito tempo pra que eu esqueça esta conversa!
Hoje, acho que é isso mesmo, a vida e as pessoas são coisas que toleramos, e talvez nem seja por falta de escolha! 
Ou de perspectiva, mas sim de coragem!
 ... no meu caso tolerar a vida ou as pessoas é medo de ser vista como sou, é falta de sossegar a alma! Agora mais do que antes, é e será sempre a minha, e só minha falta de paz!

terça-feira, 12 de julho de 2011

Ah, mundo ignorante! Se soubesses o tanto de sonho e desilusão que trago em mim, saberias que tua ira e tua compaixão não movem meu querer ... não me dizem nada!
Sou eterna, perdida e improvável!
Se soubesses o quanto sou livre ... e o quanto estou presa nas minhas lembranças saberias que estou além de você, mundo!
Muito acima de você!
Tão acima ...
Tão além de você ...
que não ouso a vergonha de nomear minha ilusão!
... teu olhar incisivo e muitas vezes disfarçado ainda vibra na minha insônia ...
E se vejo que me buscas ... sinto certa tontura, e meu estômago geme! Fecho os olhos para lembrar e não lembrar!
Embora queria sentir seus olhos, a me moldar, construir,
... eu sinto medo, frio, fome ... e um buraco embaixo de mim à me engolir! Sinto a tua solidão ... por mim e por ti, mundo ...
E não consigo ir adiante! Não mais! Nunca mais!!! 

sábado, 2 de julho de 2011

O estranho é que hoje é mais um dia comum ...

Tenho muitas coisas a dizer e nem sei quase sempre se é algo sensato a se fazer, e esta dúvida é algo com a qual nunca conseguirei conviver, pois, não tenho nenhum senso de utilidade ou de propriedade que me faça capaz de manter uma opinião sobre o mundo que seja constante. 
Sinto saudade de um diário que mantive durante dois anos, dos meus 13 aos 15 ... mas hoje seria algo inviável, pois, com o tempo certos pensamentos nunca podem ser manisfestados porque temos muitas coisas a preservar.
Na verdade nem essa frase poderia ser manifestada aqui desse jeito, não porque possa parecer exposição, mas porque todo mundo está sempre buscando um algo qualquer que possa apontar e condenar no outro. Quem a ler com certeza pensará que estou falando de um desejo secreto sobre um pecado qualquer, e sabe porque? Porque a vida e as pessoas sentem e são assim. Relacionam sempre tudo da forma errada, ou relacionam sempre com a pequenez característica da humanidade pobre que arrastam pela vida afora.
Criamos uma imagem que pensamos dever ser preservada, muitas vezes perante só algumas pessoas, mas pela qual matamos, morremos e muitas vezes nos anulamos.
Sejamos francos na medida em que pudermos ser, e admitamos que estamos em relacionamentos que precisamos preservar para a nossa felicidade de fazermos parte do "todo social", e para tanto muitas vezes não confessamos aquele palavrão que vem à cabeça na hora de uma briga, ou aquela risada que contemos sobre o comportamento ou jeito de ser de um alguém que pode até ser um amigo, e que não aprovamos. 
Seguimos em frente, calando, camuflando e assim vamos indo não sei pra onde negando a nós mesmos mas preservando amigos, filhos e pais da realidade dos nossos defeitos e da nossa parte humana.
Faz parte de uma certa natureza conduzirmos as coisas dentro de um quase "conto de fadas", pois quem olha de fora vê que está tudo bem, e passa por você e segue sem te criticar, apontar ou analisar. Queremos sempre coisas assim dos nossos amores, familia e amigos, coisas amorfas, pois, ninguém nunca lembra que nos relacionamos com pessoas capazes de ter opiniões próprias sobre nós e não sabemos lidar com as críticas que poderiam vir destas pessoas. Requer muito desprendimento entender uma crítica e é mais fácil manter as personagens que acumulamos ao longo do caminho.
Por exemplo, muitas vezes acordo de manhã e penso que queria estar acordando em outra época, ou em outro lugar. Mas isso não quer dizer que estou acordando no lugar errado ou que não estou feliz, mas que naquele momento estou questionando o rumo que as coisas tomaram. E a verdade que ninguém admite é que todo mundo sente isso, ou pensa assim muitas vezes. É normal e humano questionar os rumos. Observamos demais e nos enganamos demais também. Criamos personagens pra conseguirmos encarar o que para mim seria a insensatez da vida com um mínimo de dignidade, para conviver com tudo aquilo que a vida e o mundo nos cobra. A vida é assim e pronto, quando você cresce, no sentido de virar adulto ou de se estar sozinho, nunca mais somos quem somos com todas as pessoas que conhecemos.
Sinto saudade de tanta coisa ... de ser criança ... de olhar as estrelas só por olhar e não porque estou nostalgica ou depressiva. Até isso é estranho, pois em nenhum dia comum nos apercebemos das estrelas, e elas estão lá todos os dias mas só são lembradas nos dias tristes. Mas deixemos isso pra lá, pois é assunto pra outra hora.
Sinto saudade de ser livre, e de não ter que ficar o tempo todo policiando minhas atitudes, palavras, gestos e emoções. Lembro que fui uma adolescente completamente maluca, lembro que vivia cada momento como se fosse único e sem me preocupar com o outro dia (e hoje muitas vezes me pego fazendo isso quase sem querer), me lembro que nunca, nem sequer uma vez nesta época parei pra escolher a palavra ou a pessoa certa. Lembro de ter sido dona de uma liberdade de viver e de agir que nunca mais conseguirei sentir e acho que é desta lembrança, que hoje se tornou distante e variável, que nasceu o que é esta quase nostalgia, esta saudade entrecortada deste tempo em que fui ou melhor, era livre totalmente, livre principalmente de mim e das posturas e máscaras que fui acumulando.
Quase todos os dias me ressinto pela hipocrisia social à qual me submeto. Tenho consciência disso, mas ainda assim, na maior parte das vezes, escolho as palavras porque em um momento qualquer me disseram pra parar de procurar o pior da vida, do mundo e das pessoas. Me classificaram como depressiva e negativa por não me render a um certo "oba-oba" natural.
Fecho os olhos e penso realmente no quanto é mais fácil usar uma máscara, e ter só uma ou duas pessoas que te conheçam pelo avesso do que se expor só pra legitimar um incompreendido e criminalizado direito de opinar doa a quem doer.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

"Narrativas da Sé" - Cena 1

"Estudo de cena: o Capital e a Religião" - Cena 1

"Estudo de cena: o Capital e a Religião" - Cena 4

 
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu era feliz e ninguém estava morto. 
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,  
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. 
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,  
De ser inteligente para entre a família, 
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. 
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. 
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida. 

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, 
O que fui de coração e parentesco. 
O que fui de serões de meia-província, 
O que fui de amarem-me e eu ser menino, 
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui... 
A que distância!... 
(Nem o acho... ) 
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! 

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,  
Pondo grelado nas paredes... 
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), 
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,  
É terem morrido todos, 
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio... 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ... 
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! 
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, 
Por uma viagem metafísica e carnal, 
Com uma dualidade de eu para mim... 
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes! 

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui... 
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, 
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado, 
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,  
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . . 
  
Pára, meu coração! 
Não penses!  Deixa o pensar na cabeça!  
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!   
Hoje já não faço anos. 
Duro. 
Somam-se-me dias. 
Serei velho quando o for. 
Mais nada. 
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ... 


O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

                                                                              

Aniversário - Álvaro de Campos

sábado, 30 de abril de 2011

Chico Buarque - Cálice - Clip Ditadura

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo, 
Espécie de acessório ou sobressalente próprio, 
Arredores irregulares da minha emoção sincera, 
Sou eu aqui em mim, sou eu. 
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou. 
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua, 
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda, 
De haver melhor em mim do que eu.
Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa, 
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores, 
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho, 
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas, 
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida. 
Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.
Baste, sim baste!  Sou eu mesmo, o trocado, O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Sou eu mesmo, que remédio!  ...

Sou Eu -  Álvaro de Campos

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Antes, a questão era descobrir se a vida precisava de ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado.

Albert Camus

La lengua de las mariposas, trailer

Sinto o sangue esfriando ...
Espero anestesiar-me na proporção da não vida ...
... revoltada percebo meus pensamentos perdidos no vazio de um silêncio estrangulante!
Vozes, palavras perdidas e risos sem sentido ou destino mostram o quanto só vêem em mim o meu pior ...
Em um mundo no qual reina a indiferença, o individualismo e a alternância dos valores os meus defeitos me parecem ultrapassados, mas ainda assim, os olhares de reprovação me fazem senti-los cada vez mais pesados nas minhas mãos vazias!
Não saber como agir amanhã ... e a incerteza do dia seguinte, e da renúncia de ser ou estar matam o resto de bondade que tenho dentro da alma ... tento, mas não consigo deixar de sentir receio pelo tanto que corro em direção ao caos e a solidão ...

quarta-feira, 30 de março de 2011

Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...
- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...
- palavra que não direi.
Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
- que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...
e um dia me acabarei.



                                     Cecília Meireles